A verdadeira alegria
é sentida ao descobrir que tudo que alimenta está aqui. Diante dos meus olhos.
No toque do corpo. No cheiro da alma.
E se o que
procuramos não existir? As músicas não tocam naturalmente quando damos um
beijo. Elas não surgem em proporções tão magníficas ao desenrolar do carinho.
Ela não faz parte da... natureza.
Mas se quisermos,
podemos colocá-la pra tocar. Com apenas um gesto... podemos mudar todo o mundo
a nossa volta. Mudando o olhar... podemos ver com outra vida.
”Estava sentada nas
pedras. O mar respingava em seus pés. Sentia medo. Mas sentia amor, também.
Queria esperar alguém... mas sabia que ninguém viria. Não havia pessoa no mundo
que pudesse convidar. Não existia ninguém que pudesse compartilhar com ela, uma
expectativa. Um sonho de horizonte.
As ondas batiam com
força, e ela sabia que mergulhando naqueles sentimentos, afundaria de vez. Mas
o afundar-se não era ruim. Era um afundar-se em sensações, as gotas salgadas
que respingavam em sua boca e que lhe lembravam que os sonhos foram feitos para sonhar.
Mas que as vidas foram feitas para se viver, isso era mais importante do que
tudo.
Ali sozinha, longe
demais de casa, pensava em não voltar mais pro corpo. Pra cidade, as luzes, as
buzinas, as risadas, os desesperos. Nada daquilo lhe fazia bem. Sua vida estava
em um nível de realismo que daria uma obra de arte... sobre o nada que tinha a declarar.
Queria ter lembranças pra contar pros seus netos, se fosse ter filhos, se
encontrasse um amor, talvez.
Ali ela ficou,
sentia nostalgia do futuro. Como era ruim descobrir que a vida que se vive por
alguém não era a dela. Era triste descobrir que os olhos se fecharam para ela,
e por causa disso, ela se fechara para os olhos. Para os seus próprios olhos.
Não se enxergava mais. Então já não escrevia tanto. Lia, mas já não sabia
interpretar. Não sabia mais como era falar, conversar [...] tinha perdido a
prática depois de tanto tempo.
Só sabia acalmar a
alma, escrever com a mente, as palavras em imagens... e seu único assunto, seu
único tópico, sua única escolha... era ver a moça, que devagar caminhava, mas
que não respirava.. que ia em direção ao mar, com sua pele nua, com o vento a
eriçar sua sombra... cada passo que dava, afundava mais em ondas que moviam o
mundo, jorravam água em cima de água num ritmo feroz, violento e...
encantado...
Sua musicalidade
crescia, enquanto a moça ia afundando cada vez mais, entrando no fundo, no fundo,
no fundo... do [a]mar”.
Submergiu.
E então as ondas
cessaram.
O vento parou.
O mar se calou.
E vida... deu seu único,
E último,
suspiro.

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