terça-feira, 27 de novembro de 2012

Amável mentira

Eu não sou só o que como. Sou o que bebo, o que vejo, o que escrevo, o que cheiro, o que pinto, o que beijo, o que cuspo, o que leio, o que penso, o que faço, o que uso, o que desgasto, o que digo, o que sou.
E é muita palha pra pouco fogo, é muito desgosto pra pouco gosto.
- Como pode dizer isso? Tens apenas quinze primaveras!
- Tenho também quinze outonos, quinze invernos, quinze verões. Falo de um espírito antigo, do meu verdadeiro eu, já usado, desgastado, sofrido, apaixonado.
E é muita palha pra pouco fogo, é muita palavra pra pouca boca.
Porque quando se trata de amor, é infinito, mas quando se trata de amor de ser humano é quebradiço, facilmente destruído. O que mais vejo por aí, nessas ruas estreitas da cidade que de vento em vez me perco são pessoas feridas por amores falados; nada sentidos - apenas criados com palavras doces. Pessoas que choram por sonhos não realizados, que choram pelo sexo (des)sentimentalizado.
Corro atrás delas... tiro o sonho de seus olhos... tiro os sussurros de seus ouvidos... tiro os beijos de suas bocas... só não tiro a dor de seus peitos doloridos porque não sou Deus e é por me livrar desse pesado compromisso que eu te testo...
Vem cá meu bem e me diz até onde você pode chegar com esse amor... se... eu... enlouquecer. Se  eu virar vadia, se eu matar um padre, se eu empurrar velhinhas, se eu bater em crianças, se eu drogar a minha irmã, se eu destruir um patrimônio da cidade, se eu queimar um gato, se eu morder um bebê, se eu correr da polícia, se eu xingar os deuses, se eu me embebedar e contar ao mundo todos os seus segredos, se eu transar com um mendigo e... o pior: Se eu amar você. 

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